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A utopia do repovoamento

12/03/2002

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Ao invés de jogar alevinos nos rios, a diminuição de estoques pesqueiros deveria ser combatida na origem, que é a devastação ambiental nas margens.

É cada dia mais preocupante o modismo que está crescendo de tentar resolver a falta de peixes nos rios e reservatórios através do repovoamento, isto é, introduzindo alevinos criados em cativeiro.

Pelo menos dois aspectos fazem com que o "tiro saia pela culatra", como diz o dito popular. O primeiro deles é que a introdução de alevinos criados em cativeiro e colocados nos rios e represas, quase sempre provenientes de um casal ou poucos casais, faz com que a variabilidade genética seja muito baixa.

As populações naturais possuem uma grande variabilidade genética pelo fato de serem provenientes de muitos casais que se reproduzem na natureza, selecionados pelas condições naturais do ambiente. Dessa forma, introduções aleatórias, mesmo feitas com as melhores intenções, podem levar à redução dessa variabilidade genética e, eventualmente, comprometer a sobrevivência da espécie.

O segundo diz respeito à introdução de doenças e parasitas, que antes não existiam no ambiente natural. Isto porque a criação em cativeiro, em alta densidade, é extremamente propício ao aparecimento de doenças e propagação de parasitas. O caso mais clássico e conhecido é a Lernia, uma espécie de crustáceo minúsculo, que parasita as brânquias de peixes e pode provocar mortandades maciças em cativeiro. Onde a Lernia foi introduzido em ambientes naturais, por repovoamentos de peixes, tornou-se praga, impossível de ser erradicada.

Ainda, o repovoamento é feito quase sempre usando alevinos. Ora, alevinos, como qualquer ser vivo, necessitam de alimento. Ao menos nos rios do Pantanal, a criação dos alevinos se dá nas áreas alagadas durante a cheia, localizadas no baixo curso. Soltar alevinos no rio Cuiabá, como já vem sendo feito por alguns, nas proximidades das cidades de Cuiabá e Várzea Grande é improdutivo, pois nesse trecho do rio não há alimento para eles, além do grande risco de introduzir doenças e parasitas, conforme citado.

O que faz as pessoas quererem promover repovoamentos de rios e represas com peixes? É a percepção de que estão faltando peixes! Mas porque faltam? Devido à degradação ambiental e ao excesso de pesca, ou pesca inadequada. Assim, ao invés de combater as conseqüências promovendo repovoamentos, cujos resultados poderão causar mais problemas, a batalha deveria ser em prol da recomposição das condições naturais dos rios, lutando contra a destruição das matas ciliares e da degradação de suas águas pela introdução de agrotóxicos, esgoto de cidades e poluição industrial.

A batalha deveria ser também pela conscientização da população, de que a pesca não pode ultrapassar a capacidade de reposição dos estoques das populações naturais, obedecendo aos limites impostos pela natureza e referendada pela legislação, como tamanho mínimo de captura (o que assegura que o peixe se reproduza ao menos uma vez antes de ser pescado), cotas de captura (o que assegura a pesca dentro dos limites da capacidade de suporte do sistema) e período de defeso de reprodução (para assegurar a reprodução e, dessa forma, a renovação dos estoques).

Se assim fizermos, ao invés de repovoamentos inúteis, com todas as suas conseqüências, estaremos efetivamente contribuindo para a manutenção dos peixes, que nos fornecem alimento e lazer.

Emiko Kawakami de ResendeEnvie um email!
Bióloga - EMBRAPA/CPAP

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  • Recomposição e repovoamento dos rios
    Dra.Emiko, simplesmente brilhante o seu artigo com essa visão lúcida. Muitas, sem a informação/formação adequada, no afã de cuidar, acabam provocando desequilíbrio. Sugiro que, ao invés de atirarmos-lhes "pedras", façamos a sua convocação para essa causa: não atiremos pedras, vamos usá-las para construirmos pontes, entre elas e nós, e não atingí-las simplesmente como "culpadas". Parabéns!!! Avante, Dra. Emiko. Abraços, Adilon de Souza, piscicultor, Rubiataba (Goiás)
    adilon de Souza - 05/11/11 18:37

  • Repovoamento dos rios
    Maria Elizabete Buzatto, meus parabéns !!! A ausência de "qualificação técnica" dos nossos políticos é imensa, aliás o cargo é eletivo, não requer nenhuma instrução. Mas voltando ao repovoamento, temos que combater a causa do problema e não seu efeito, ou cuidamos dos nossos rios de forma efetiva ou pagaremos um alto preço. abraço
    Ney Rossener Ferreira Junior - 11/10/11 11:32

  • repovoamento
    Achei super interessante sua pesquisa, quem deveria ler é o deputado estadual Sergio Ricardo de Mato Grosso que adora se promover deixando uma grande quantidade de alevinos no rio Cuiabá e faz a maior propaganda com isso, seu artigo mostra o quanto sáo desprovidos de conhecimentos esses nossos legisladores.
    maria elisabete buzatto - 27/12/10 13:38

  • O vosso parecer e comentário faz falta
    Bons Dias meus senhores, Tenho visto o vosso último trabalho sobre a preservação da fauna piscicula e repovoamentos, e aqui vos felicito pelo trabalho desenvolvido e vos dou os meus parabens, e solicito a vossa ajuda e parecer sobre um tema que lancei no forum do portal de pesca em portugal. Nesse forum tenho tido só contestação e poucas ajudas. Se voces fizerem uma visita em, PLANETA PESCA - O Portal da Pesca Desportiva em Portugal. Tudo sobre todos os tipos de pesca desportiva, tanto no mar, rio ou costa. www.planetapesca.com/ , no tema " Preservar o Futuro". Ficaria muito grato se visse uma dica vossa a ajudar o meu trabalho. Talvês servisse de ajuda e lição para os meus governantes, que não atam nem desatam. Muito obrigado e os meus cumprimentos Carlos
    carlos manuel pinto baptista - 21/03/08 03:55

  • Re: repovoamento
    Prezado João Severo, Muito legal que você tenha entendido a questão. Será muito bom também se puder nos auxiliar na divulgação do assunto. Atenciosamente, Emiko Kawakami de Resende autora do artigo
    Emiko Kawakami de Resende - 09/07/07 03:15

  • repovoamento
    tambem acho o repovoamento uma grande bobagem seria muito mais interessante se evitasemos e controlasemos a poluição dos nossos rios e a pesca predatoria
    joao odim fan severo - 08/07/07 15:04

  • repovoamento
    Bem sintetizado: falou tudo. Conscientização é a palavra chave.Parabens! Infelizmente acredito que as flechas continuarão sendo disparadas: não há retôrno. PS - Vamos acreditar! Enviarei este artigo para meus amigos ambientalistas. Grato.
    antenor - 04/02/07 12:56

  • repovoamento
    Sra. Emiko Desculpe-me, mas enviei uma menságem sem concluí-la. em relação a referida reunião que haverá no próximo dia 02/02/07, temo que por interessem maiores, venham a decidir pela introdução de espécies exóticas ou pela introdução de animais produzidos comercialmente, desinteressante geneticamente. gostaria de obter seu parecer sobre o assunto e também informações sobre repovoamento com espécies naticas como algumas ocorridas no rio Grande conforme tenho notícias de repordução de surubim, ou outra de sorubim se não me engano no rio tibagi, no estado do Paraná. No aguardo de sua resposta e já agradecendo.
    Alex Aurani - 15/01/07 15:09

  • Repovoamento
    Sra, Emiko, Sou biólogo e trabalho na área de licenciamento ambiental na região de Avaré SP. Minha cidade é banhada pelo rio Paranapanema, mais precisamente as marguens da represa Jurumirim,a qual é a primeira represa rio acima, que tem como finalidade, além da geração de energia, função de reservarório regulador, pois esta, retem mais água do sua necessidade, garantindo assim o suprimento de água para outras barragens ria abaixo. Lí uma reportagem em um jornal da prefeitura, na qual me informei sobre uma discução no próximo dia 02/02, sobre repovoamento de nossa represa. Este rio, originalmente era povoado por doutados e surubins, espécies quase estintas devido ao grande número de barragens, mas ainda é possível encontrar exemplares, e alguns, de grande porte, como um dourado capiturado no ano passado em itaí,cidade vizinha. É sabido que dourados desse porte, são raros mesmo no pantanal e que essa carga genética está se perdendo. Estou consiente da decessidade de reflorestamento das margens, para dar condições para prolileração dos exemplares remanescentes, mas acredito na necessidade de reprodução artificial desses exemplares, e principalmente cruzando animais de áreas da jusante da barragem, com animais da vasante da mesma, e com o maior número possível de exemplares, garantindo assím a perpetuação dessa carga genética que está se perdendo.
    Alex Aurani - 15/01/07 14:25

  • utopia do repovoamento
    sou estudante de Engenharia de pesca, achei interessante o seu artigo, pq o pantanal é uma das nossas maiores riquesas naturais, e artigos como o seu, ajuda a divulgar o problema e aumenta a consciência das pessoas.
    kleber rodrigo - 31/10/05 20:25

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