Agronline
Página inicial dos artigos
Início
 
Agricultura
 
Agroinformática
 
Desenv. Rural
Economia Rural
 
Pecuária
 
Barreiras, ocratoxina e a necessidade de manutenção do acordo

20/11/2004

A questão das barreiras comerciais agita o meio do agronegócio há muito tempo. O setor de cana, por exemplo, durante anos protestou contra o subsídio oferecido aos produtores europeus no que concerne à beterraba. Evidentemente que esse subsídio é uma garantia de sobrevivência aos produtores do velho mundo, uma vez que o açúcar brasileiro é muito mais barato para ser produzido e poderia inundar o mercado europeu, levando os produtores de beterraba a exterminar suas lavouras.

Na verdade, a questão subsídios/barreira, no segmento primário da economia, é algo que dificilmente o mundo verá se acabar. Países ricos não querem abrir mão de ter suas produções garantidas em casa e receber em troca trabalho no campo e menos gente indo para as cidades, algo que o Brasil já viu muitas vezes. Além disso, a economia agrícola não representa a maior fatia do bolo para esses países, que movimentam um universo muito maior de recursos na industrialização e nos serviços. Ou seja, é relativamente barato para aqueles governos ricos manter os subsídios e criar barreiras, tendo em troca uma economia em aparelhos sociais diversos.

As vitórias de alguns países exportadores do terceiro mundo no âmbito da Organização Mundial do Comércio ainda podem ser vistas apenas como ligeiros avanços, já que o panteão de proteção da agricultura primeiro-mundista é muito extenso e rompê-lo por certo será mais um trabalho digno de Hércules.

Nesse contexto, o café solúvel deve a chamar a atenção, já que novos níveis de controle de ocratoxina, fungo que pode causar câncer e que se desenvolve em ambientes úmidos, passaram a ser exigidos para essa modalidade de produto adquirido pelos países da União Européia. Algumas nações produtores já foram à OMC e buscarão interpelar os europeus sobre as novas normas.

Ao contrário de algumas barreiras perversas existentes no mercado internacional, essa da ocratoxina para o café pode ser um fator de vantagem para o Brasil. Inicialmente por ela se aplicar apenas ao solúvel, não atingindo de imediato o café verde. Por outro lado, a verificação de níveis mais rigorosos da presença da ocratoxina não afeta de forma direta o solúvel nacional, já que mecanismos mais fortes de controle dos fungos foram efetuados no final da década passada quando da detecção de ocratoxina em armazéns no Paraná.

O Brasil possui um bom escopo de pesquisas na área de controle de micotoxinas, tendo à frente a Embrapa. Ao contrário do Brasil, nações africanas e centro-americanas ainda engatinham em áreas estratégicas como a da pesquisa e poderão sofrer para apenas tentar quantificar a presença da ocratoxina em seus cafés. O Brasil, assim, está muito adiante do seus concorrentes diretos e não deverá sofrer grandes impactos com essa nova regulamentação, que por certo correrá o risco de se estender, no futuro, ao verde. Nesse caso também o Brasil estaria mais seguro, já que, além das pesquisas e estudos avançados, possui um clima mais seco e sistemas de secagem mais interessantes (natural) que concorrentes diretos, como os centrais, por exemplo.

O segmento solúvel, assim, deveria se preocupar mais com o final do acordo obtido após um panel no âmbito da OMC, quando foi fixado um teto de exportações do produto brasileiro para os europeus. O acordo expira no próximo ano e o Brasil corre o risco de voltar a sofrer com a política draconiana de taxação zero para países que têm o tráfico de drogas ameaçando áreas rurais, o chamado Regime Drogas.

Seria um grande retrocesso para o Brasil a volta daquela situação. Além disso, é importante lembrar que a União Européia abraçou dez novas nações, sendo que algumas delas são boas compradoras do solúvel nacional, como é o caso da Polônia. Diante disso, o segmento, com apoio governamental, tem de se mobilizar e encontrar mecanismos para a manutenção do acordo de cotas, garantindo um mercado vital para o Brasil. As dez novas nações da UE também receberão uma “injeção de ânimo”, como ocorreu com a Grécia e outros países, para se adaptarem ao cenário econômico do restante do bloco. Depreende-se que tais nações passarão por um certo “boom” de crescimento, o que levará o consumo a ser estimulado. Em um cenário como esse o solúvel brasileiro não pode sofrer com barreiras, ainda mais com barreiras absurdas como essa criada pelo lobby centro-americano em cima do problema do narcotráfico. Deve-se agir já.

Flávio BredariolEnvie um email!
Jornalista - Autônomo

  Enviar este artigo por e-mail  Imprimir este artigo  Como citar esse artigo 
:. COMENTÁRIOS
    Clique aqui!  E deixe seu comentário sobre o artigo!

:. ARTIGOS RELACIONADOS

Artigos por assunto

Administração Agribusiness Agricultura de Precisão Agricultura Familiar Agricultura Urbana Agroecologia e orgânicos Agroindústria Agronegócio Agropecuária Familiar Agropesquisa Alimentação Apicultura Avicultura Boi verde e Pecuária orgânica Bovinocultura Caprinocultura Ciência florestal Climatologia Comércio internacional Comunicação Contaminação de águas Cooperativismo Crédito agrícola Crédito Rural Crise Energética Desenvolvimento Rural Desenvolvimento Sustentável Ecologia Educação Exportação Extensão Fauna Silvestre Fertilidade do Solo Fertilidade e conservação do solo Fitopatologia Fitotecnia Forrageiras Fruticultura Genética Horticultura Internet na agricultura Irrigação e Drenagem Marketing Meio ambiente Nutrição animal Ovinocultura Paisagismo Pecuária Leiteira Piscicultura Plantas Daninhas Plantas Medicinais Plantio direto Pragas e doenças Rastreabilidade Animal Sanidade animal Segurança Alimentar Seguro agrícola Sementes Suinocultura Tecnologia Transgênicos Zoonoses
Copyright © 2000 - 2017 Agronline.com.br