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Importância da Biotecnologia para a produção de carne bovina

07/12/2005

:. Do mesmo autor
Consorciação de gramíneas e leguminosas forrageiras em pastagens na Amazônia.

A notícia sobre os focos de febre aftosa nos Estados do Mato Grosso do Sul e do Paraná, responsável pela queda nos preços da arroba do boi e nas exportações de carne bovina levou por água as expectativas dos exportadores que almejavam melhorar a remuneração da carne bovina brasileira, a qual vinha liderando os embarques mundiais. As estimativas preliminares do setor privado apontam para perdas de US$ 1,7 bilhão em exportações de carne com os embargos impostos por 49 países aos produtos brasileiros por causa da febre aftosa.

As especulações sobre as causas do reaparecimento da febre aftosa no Brasil reacenderam as discussões sobre a eficácia dos programas de imunização. A falta de eficiência das vacinas utilizadas atualmente baseia-se no fato das mesmas apresentarem janela imunológica longa (período em que o animal vacinado permanece desprotegido) ou ainda por apresentarem problemas de biossegurança na sua produção e na estocagem. As vacinas produzidas a partir das técnicas disponíveis nos laboratórios de biotecnologia, as quais permitem alterar as moléculas (ácido dexorribonucléico ou DNA e ácido ribonucléico ou RNA) que contém todas as informações genéticas de um indivíduo, podem substituir com vantagem as vacinas tradicionais, já havendo diversos exemplos em desenvolvimento ou comerciais. Essas vacinas são conhecidas como vacinas recombinantes. Existe ainda a possibilidade de produção de vacina contra aftosa em plantas geneticamente modificadas (transgênicas). Ao se alimentar com a planta modificada os animais podem produzir anticorpos contra a aftosa que os deixarão “protegidos”, o que significa que ao entrarem em contato com o vírus não irão manifestar os sintomas da doença. Dentre as vantagens dessas vacinas pode-se citar a não necessidade de refrigeração ou armazenamento em baixas temperaturas, a estabilidade e sua aplicabilidade para uso em países subdesenvolvidos.

Além disso, o uso da biotecnologia pode fornecer subsídios para o desenvolvimento de testes laboratoriais para o diagnóstico mais preciso, barato e precoce da febre aftosa. Novos métodos de diagnósticos mais rápidos e seguros podem ser realizados utilizando a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), uma das ferramentas mais utilizadas nos laboratórios de biotecnologia para sintetizar e multiplicar in vitro regiões específicas do DNA ou RNA de qualquer organismo.

Outro problema que afeta diretamente a rentabilidade da produção de carne bovina é a infestação com carrapatos e bernes, também conhecidos como ectoparasitos, que causam reduções drásticas na produção de carne bovina. Estima-se que o Brasil deixa de produzir em torno de 26 milhões de arrobas de carne bovina por ano levando a um prejuízo próximo a 2 bilhões de reais por causa das infestações com o carrapato do boi (Boophilus microplus). Atualmente, o controle desse carrapato pode ser realizado com a utilização de produtos químicos (acaricidas), vacinas e animais de raças resistentes. O controle baseado no uso exclusivo de acaricidas enfrenta os problemas da resistência adquirida pelos carrapatos num curto espaço de tempo, ao elevado custo econômico e ao impacto ambiental negativo. Por isso, muita importância está sendo dada às novas alternativas, como o uso de vacinas recombinantes e de animais geneticamente resistentes. E, nesses casos, as ferramentas de biologia molecular auxiliam nas buscas por antígenos (matéria prima das vacinas) e por animais que apresentem genes ou conjunto de genes que estejam relacionados com a resistência aos carrapatos. As técnicas de clonagem (reprodução de indivíduos geneticamente idênticos) auxiliam na produção em escala comercial dessas vacinas.

Mas, os ganhos que podem ser alcançados com o uso da biotecnologia vão além da sanidade do rebanho. O manejo reprodutivo e, conseqüentemente, o melhoramento genético do rebanho ganharam grandes aliados a partir do surgimento da inseminação artificial na década de 50 e com o advento do congelamento do sêmen que propiciou a rápida multiplicação do número de descendentes geneticamente superiores. Na década de 70 surgiu a transferência de embriões, a qual tornou possível escolher também a melhor fêmea a ser fecundada. O avanço seguinte veio com a fecundação in vitro, no laboratório, que acelerou o aproveitamento dos muitos "óvulos" (oócitos) da fêmea doadora e colocou muito mais vacas para multiplicar descendentes. No final do século 20, a engenharia genética na área animal surpreendeu o mundo através do desenvolvimento de técnicas de clonagem de animais adultos, trazendo à tona a possibilidade de se multiplicar em laboratório animais de elevado valor genético e econômico. Através das técnicas de manipulação do DNA pode-se vislumbrar a possibilidade de produção de animais com maior velocidade de ganho de peso e capacidade de produção de carne mais saborosa e com menos gordura.

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Ana Karina Dias SalmanEnvie um email!
Pesquisadora - EMBRAPA/CPAFRO

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