Agronline
Página inicial dos artigos
Início
 
Agricultura
 
Agroinformática
 
Desenv. Rural
Economia Rural
 
Pecuária
 
Uma análise da presença do bioma caatinga na cultura popular nordestina.

06/11/2002

É natural que aspectos da zona seca do Nordeste, principalmente da Caatinga, tenham uma presença marcante na música regional. Dois fatos explicam isto: 1. O Nordeste era rural, situação que predominou até recentemente, a maioria dos compositores era de origem rural, e o próprio Gonzagão também o era; 2. O drama das secas periódicas que ocorrem na região, castigando a população, e cujo sofrimento sensibiliza por demais a sociedade. No Documento “O Bioma Caatinga representado na Cultura Popular Nordestina”, publicado pela Embrapa Semi-Árido, o autor garimpa em cerca de 34 clássicos do cancioneiro regional, versos, nos quais procura analisar a vinculação entre a sabedoria popular e o conhecimento cientifico sobre o Semi-Árido, especialmente a Caatinga. A sua origem rural e o fato de muito apreciar a música nordestina estimularam o autor a vasculhar em versos primorosos paralelismo com o trabalho de pesquisador que exerce há 26 anos.

Já na apresentação do referido documento chama-se a atenção para o fato de que se a tecnologia criada pela pesquisa não chegar ao produtor, numa seca prolongada, a vaquinha vai ficar realmente no couro e no osso, podendo até morrer, em alusão à música O último pau-de-arara (Venâncio/Corumba/J. Guimarães).

O primeiro aspecto abordado no documento é a caracterização da Caatinga, a pastagem nativa mais densa do mundo, ou seja, com maior quantidade de arbustos e árvores, e isto é enfatizado na frase “... pra ver um cabra entrar no mato encorado, derrubar touro amontado ...” da música Moxotó (Rosil Cavalcanti). Esta característica da vegetação obriga o vaqueiro a usar a roupa de couro, uma indumentária única no mundo, que foi alçada à condição de símbolo cultural da região, tendo sido adotada de modo artístico por cantores como Gonzagão. Outra característica da Caatinga é a queda das folhas. Como economia d’água, as plantas lenhosas perdem as folhas na época seca, e isto é retratado em várias músicas, como em Maria Fulô (H. Teixeira/Sivuca), no trecho “Adeus Maria fulô, marmeleiro amarelou, Adeus Maria Fulô, olho d’água esturricou”. O marmeleiro é citado porque as folhas desta planta, antes de caírem, se tornam amareladas, prenunciando a estação seca. No grande clássico Luar do Sertão (Catulo da P. Cearense), há o trecho “Ai que saudade do luar da minha terra, lá na serra branquejando folhas secas pelo chão.

Outro aspecto abordado é o efeito das secas na morte das plantas. Vejam estas duas músicas: “... Se não vier do céu, chuva que nos acuda, macambira morre, xique-xique seca, juriti se muda...” (Meu Cariri - Rosil Cavalcanti); “Quando a lama virou pedra e mandacaru secou; quando ribaçã de sede bateu asas e voou ... ” (Paraíba - H. Teixeira/L. Gonzaga). Se há algo comum no Semi-Árido é a morte de plantas numa seca prolongada. Nestas duas músicas, no entanto, a morte das espécies citadas são licenças poéticas dos compositores. Essas são plantas que não morrem. Seus mecanismos fisiológicos permitem que elas não percam água e, por isso, são plantas muito utilizadas pelos pecuaristas para alimentar os rebanhos nas secas prolongadas. Elas não morrem mas aparecem nas músicas porque têm aspectos fenotípicos diferentes, que atraem a atenção. As cactáceas e bromeliáceas são plantas bonitas e muito resistentes aos estresses hídricos da região. Ao cantá-las mortas, os compositores ressaltam até que ponto as secas se mostram severas. As secas causam realmente degradação da caatinga pelo perecimento de arbustos e árvores. Mas se não houver sobreuso por parte do homem, a vegetação volta ao normal por ela mesma.

O documento ainda aborda o aparecimento, com força total, das músicas ecológicas a partir dos anos 70. O romantismo do caboclo, tão bem caracterizado na música Juazeiro (L. Gonzaga/H. Teixeira) (“Juazeiro, não te alembra onde nosso amor nasceu, ...”) , passa a dividir espaço com a ecologia, representada em músicas como Umbuzeiro (Elomar) (“Mas cadê meus umbuzeiros, que floravam todo ano; ...”) e Matanças (Jatobá) (“... É caviúna, cerejeira, baraúna, imbuia, pau d´arco, cedro, juazeiro, jatobá; gonçalo alves, paraíba, itaúba, louro, ipê, paracaúba, peroba, massaranduba ...”). O que chama a atenção nestas duas músicas ecológicas é a preocupação com as árvores. Os compositores, ao invés de se “ligarem” mais no solo, se “ligam” mais na vegetação, e as árvores, por serem de maior porte, em menor número e de maior valor, são as primeiras a sentirem o peso da degradação. Aquele jargão dito durante as brigas de rua entre meninos, qual seja, “quanto maior o tamanho, maior a queda”, serve muito bem para a ecologia. O perigo de extinção está sempre nos maiores carnívoros, nos maiores herbívoros, nas maiores árvores, e assim por diante.

Páginas: anterior 1 2 próxima Topo da página


Severino Gonzaga de AlbuquerqueEnvie um email!
Pesquisador - EMBRAPA/CPATSA

  Enviar este artigo por e-mail  Imprimir este artigo  Como citar esse artigo 
:. COMENTÁRIOS
    Clique aqui!  E deixe seu comentário sobre o artigo!

  • Meu Sertão sertanejo
    meu sertão sertanejo alvo de especulação; curral de votos e promessas de homens sem amor. terra cabra macho na caatinga aventureira de gracilano ramos, gonzaga e Delmiro goveia, do homem sério de sangue na orelha que bebe no barreiro a agua que tanto queria vendo um rio correndo dentro na veia e o gado sedento se indo... doi no peito e na alma mas o sertão me acalma e nem no último pau de arara sai daqui.
    Jjose Alberto Olimpio da Silva - 29/09/10 12:04

  • a caatinga
    Fico muito triste quando falo da caatinga, pois eu vivo em uma região semi-arida do nordeste da Bahia, onde fazia passeadas pela caatinga imensa e hoje vejo destruindo tudo um devasto enorme, perderam o amor pelas coisas belas que Deus oportunidade por vários anos de desfrutarmos desta maravilha.
    osenita - 05/08/09 02:13

  • CAATINGA (uma análise da presença do bioma caatinga na cultura popular nordestina)
    Pesquisador Severino Gonzaga de Albuquerque, sou muito ruim para digitar, mas da forma que vossa senhoria publicou com meu nome, desculpa, não fui eu, acho que é queimação, mas tudo bem. Como vossa senhoria é da EMBRAPA, homem de muito conhecimento é aceitável. Com relação a mim, isso não me preocupa, eu não sou bom igual a vossa senhoria mesmo! Só vós sois bom!!! José Roberto de Sá
    José Roberto de Sá - 02/03/09 04:05

  • sobre a caatinga
    Pesquisador - EMBRAPA/CPATSA, escrever é muito complicado pelo fato de muitas coisas já terem ditas. Eu, não tinha o que fazer, estaa parado em casa, resolvi escrever umlivro intitulado a "A química do pensar" e retrato o caminho da caatinga, baseado no meu município São José da Lagoa Tapada- PB e lá depois que passei 13 anos fora entre o brejo paraibano - Fortaleza e Lavras Sul de Minas, ao voltar vi que na beira do rio não existe mais o angico, a cajazeira, o percurso dorio já não é o mesmo, enfim, tudo diferente, além disso, sinto falta da presença de uma populção de preá bem reduzida, mas ao ler seu artigo, comoé legal, você sentir um sentimento bem semelhante ao seu e dos autores de várias músicas semelhantemente ao meu hoje citado no meulivro, com outra linguagem, porem, com a mesma sensiblidade. Parabens. José
    lucas - 08/08/08 04:05

  • Caatinga nordestina
    Parabéns pelo artigo nós educadores agradecemos as informações . Já não era sem tempo de começar a nos preocuparmos com nosso meio ambiente local. Certo que todo planeta é nossa casa , mas os livros didáticos enfoca muito a problemática de outras regiões e a nossa rica e bela regiõa nordeste fica pouco explorada . Já há algum estado que fez seus livros didáticos de Geografia e História com os conteúdos locais. Muito obrigada.
    Maria Goreth - 21/02/08 19:21

  • Riqueza
    A riqueza da cultura nordestina é indiscutível... Adorei tudo que li aqui e tomei a liberdade de levar para minha sala de aula onde estou trabalhando com meus alunos o Bioma da Caatinga e vamos apresentar uma feira sobra a diversidade de espécies e a diversidade cultural. Parabéns!!!! Poderia enviar para meu email a música Umbuzeiro de Elomar? Já procurei nos sites e não encontrei. Obrigada! Bjus!
    Deborah - 25/11/07 19:44

  • CAATINGA
    Prezado Severino Gonzaga de Albuquerque Pesquisador - EMBRAPA/CPATSA, escrever é muito complicado pelo fato de muitas coisas já terem ditas. Eu, não tinha o que fazer, estaa parado em casa, resolvi escrever umlivro intitulado a "A química do pensar" e retrato o caminho da caatinga, baseado no meu município São José da Lagoa Tapada- PB e lá depois que passei 13 anos fora entre o brejo paraibano - Fortaleza e Lavras Sul de Minas, ao voltar vi que na beira do rio não existe mais o angico, a cajazeira, o percurso dorio já não é o mesmo, enfim, tudo diferente, além disso, sinto falta da presença de uma populção de preá bem reduzida, mas ao ler seu artigo, comoé legal, você sentir um sentimento bem semelhante ao seu e dos autores de várias músicas semelhantemente ao meu hoje citado no meulivro, com outra linguagem, porem, com a mesma sensiblidade. Parabens. José Roberto de Sá
    JOSÉ RPBERTO DE SÁ - 09/07/07 09:39

  • Artigo de Severino
    Severino, Para escrever um artigo como este, não bastava ser Severino, tinha que ser Gonzaga também. Tinha que ter a cara do Nordeste. Seu artigo está simplesmente divino, leve, gostoso de se ler do começo ao fim. Achei maravilhosa essa abordagem citando as musicas que na verdade, contam nossa história. Caí na sua rede, fazendo uma pesquisa sobre mandacaru. Acredite: deitei e rolei. Parabéns pelo artigo.
    Dalinha Aragão Catunda - 13/04/07 15:26

  • Uma Análise da Presença do Bioma Caatinga Representado na Cultura Popular Nordestina
    Parabéns por tão lindo e importante trabalho. Nasci no sertão pernambucano e resido em Brasília, e tenho uma preocupação muito grande com a preservação ambiental. Há 2 anos li o documento na íntegra. Por trabalhar em outra área totalmente diferente, pude entender através da cultura popular, algumas características da caatinga, e as consequências com as secas prolongadas, que em síntese, deveria ser preocupação de todo o povo brasileiro. Parabenizo também o autor que com sua sagacidade, nos proporcionou uma pesquisa bastante prática de nossa cultura nordestina.
    Isabel Cristina Barros Coelho - 12/02/07 13:08

  • Senti o cheiro da Caatinga...
    Senti o cheiro da Caatinga Da fulô da Catingueira Da casca do Cumaru Do Pau Pedra e da Aroeira Na "carta" de Severino Eu voltei a ser menino Descendo em minha ribeira Ribeira das Espinharas De Mofumbo e de Favela De Mulungus e Oiticicas Ipês de flor rocha e amarela Da moita de Jaramataia Na beira do rio se "espaia" Só restam saudades dela
    Alexandre Eduardo de Araujo - 28/09/05 18:12

  • artigo de Severino
    Gostei muito do artigo e gostaria de ler o documento a que se refe na íntegra. Como devo proceder?
    Maria do Rosário Rebouças - 19/09/05 11:29

  • Artigo caatinga X Cultura Nordestina
    Muito boa a abordagem> è fato que quando se fal da caatinga geralmente se esquece a cultura,o cordel por exemplo . Giostaria de conhecer o Documento na integra . Como faço? obrigada
    marly serejo martins - 12/05/05 10:55

  • adicionar contatos e parabenizar pelo artigo.
    pARABENIZAMOS PELO ARTIGO. rEPASSAMOS POR E. MAIL PARA AGENCIAS DE DESENVOVLIMENTO DO ESTADO E MEIOS DE COMUNICAÇÀO fALADA, ESCRITA E tELEVISADA DO ESTADO DA BAHIA. APROVEITAMOS DO ENSEJO PARA RENOVAR OS VOTOS DE ADMIRAÇÀO E ESTIMA. ELIAS OLIVEIRA FILHO OFICINA DE AGRONEGOCIOS DA SEAGRI FEIRA DE SANTANA.
    Elias Oliveira Filho - 05/11/03 13:38

  • :. ARTIGOS RELACIONADOS

    Artigos por assunto

    Administração Agribusiness Agricultura de Precisão Agricultura Familiar Agricultura Urbana Agroecologia e orgânicos Agroindústria Agronegócio Agropecuária Familiar Agropesquisa Alimentação Apicultura Avicultura Boi verde e Pecuária orgânica Bovinocultura Caprinocultura Ciência florestal Climatologia Comércio internacional Comunicação Contaminação de águas Cooperativismo Crédito agrícola Crédito Rural Crise Energética Desenvolvimento Rural Desenvolvimento Sustentável Ecologia Educação Exportação Extensão Fauna Silvestre Fertilidade do Solo Fertilidade e conservação do solo Fitopatologia Fitotecnia Forrageiras Fruticultura Genética Horticultura Internet na agricultura Irrigação e Drenagem Marketing Meio ambiente Nutrição animal Ovinocultura Paisagismo Pecuária Leiteira Piscicultura Plantas Daninhas Plantas Medicinais Plantio direto Pragas e doenças Rastreabilidade Animal Sanidade animal Segurança Alimentar Seguro agrícola Sementes Suinocultura Tecnologia Transgênicos Zoonoses
    Copyright © 2000 - 2017 Agronline.com.br